ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 562 - 24/11/2009
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MÍDIA & CRIME
O pedaço invisível e mais fundo do lodaçal

Por George Felipe de Lima Dantas em 3/11/2009

Em tempos de tantos tiroteios no Rio de Janeiro, Alberto Dines parece andar "próximo do alvo" no artigo "O pedaço mais visível do lodaçal". Faz isso ao abordar questões correntes de segurança pública neste Observatório da Imprensa. O diferencial dele na precisão "do tiro" não foi deixar de apontar a polícia como parte do problema em geral, mas sim, não colocá-la no lugar "mais fundo do lodaçal". A abordagem feita por Alberto Dines é realmente diferenciada...

A diferenciação se prende ao fato de que o jornalista foge ao padrão midiático de raciocínio fácil e intuitivo, de que cada novo episódio de crime e violência seja "mais um caso de polícia ou com a polícia".

O observador apenas um pouco mais atento ao cenário nacional de insegurança pública irá constatar uma demonização sistemática da polícia enquanto responsável "de plantão" por uma situação que pode não ser exatamente conforme retratada em suposta unanimidade midiática.

Afinal, o "problema do crime" pode ser diferente do que vem a ser o "crime problema" do país. O primeiro é genérico e universal e tem como alvo específico o patrimônio (muitos milhares de pequenos furtos e roubos), sendo objeto de um número maciço de ações policiais no mundo inteiro (seu alto número de registros, todavia, ainda esconde uma "cifra negra" ou oculta). Já o segundo é específico e não tem os mesmos protagonistas clássicos do primeiro, com eles logrando escapar, via de regra, da esfera de atuação da polícia e da repressão criminal institucional realizada pelo judiciário. O "crime problema" é perpetrado por "intocáveis ou inatingíveis".

Bem próximo do alvo

O "crime problema" pode ser imaginado como uma espécie de tipologia geral e que abrange ocorrências aparentemente inusitadas (apenas aparentemente...) e de grande ressonância, mas que nem por isso são as mais prevalentes (as mais prevalentes, repetindo, são os delitos mais comuns – furtos e roubos...). Não é todo dia que uma grande autoridade do país é denunciada amplamente na mídia. Também não é todo dia que uma aeronave policial é abatida.

As ocorrências do "crime problema", no entanto, são emblemáticas da "qualidade específica" dos criminosos/agentes mais afoitos, bem como do próprio limite que a cidadania pode esperar e "modelar" do comportamento desviante focado pelo varejo e atacado da mídia de forma espetacular. Mas elas demonstram o que é realmente problemático no "caráter nacional" em relação ao "nosso crime", e não ao "problema global do crime" – este último, um fenômeno comum e da humanidade inteira.

Os ladrões e punguistas das ruas de Nova York e de Paris não são muito diferentes dos de São Paulo e Rio de Janeiro. A ONU, em uma de suas publicações periódicas, projeta que a maioria da população de qualquer uma das grandes cidades globais será vítima de um dos chamados "pequenos crimes" em dado momento dos próximos cinco anos. Ou seja, o que diferencia a criminalidade das sociedades globais contemporâneas não é o "problema do crime", mas sim, o "crime problema". E o que existe de mais diferenciado no que escreveu Dines é exatamente o fato de tangenciar, bem "próximo do alvo", o "lugar mais fundo do lodaçal" – o "crime problema".

Limites e consciência ética

Parece que o grande diferencial da insegurança pública nacional não seja o tipo e volume do "problema do crime", mas sim, a qualidade dos "crimes problema" que afligem a sociedade brasileira especificamente. Estes últimos são os crimes que, de alguma forma, dão a feição estruturante do que depois vem a ser o "problema do crime". A corrupção parece estar sempre manifesta no "crime problema", gestando o caráter decadente do "problema do crime". Corrupção que é traduzível, essencialmente, pela apropriação desviante do patrimônio público em algo privado, o que, por sua vez, passa a ser emblemático e exemplar do "caráter nacional".

Considerando que o caráter nacional (cuja marca peculiar também está expressa no "crime problema") seja um limitador cultural até mesmo do comportamento delitivo dos criminosos mais comuns (pertinentes ao que de ordinário possa existir no "problema do crime"), é preocupante imaginar que esse caráter já seja tal, a ponto de favorecer o rompimento de limites básicos da lei e da ordem. Isso acontece tanto por parte de membros de uma elite apenas supostamente respeitável, quanto do mais ordinário dos "espertos" do narcotráfico. Assim, o rompimento de limites fica mostrado "de cima para abaixo", tanto nos crimes dos "intocáveis do poder", quanto dos que ousam até mesmo matar os "prepostos oficiais" desse poder – caso do abate do helicóptero policial no Rio de Janeiro.

Os limites foram rompidos. Como restabelecer a "ordem" no "lodaçal" do crime e da violência? De cima para baixo ou de baixo para cima?

E é exatamente nesse rompimento de limites e falta de consciência ética, igualmente entre membros da elite e da criminalidade "mais comum", que talvez esteja o "mais fundo do lodaçal" a que Dines se refere.

O resto, sim, é só "caso de polícia".

Comentários (3)
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Herodoto Carneiro , Rio de Janeiro-RJ - estudante
Enviado em 8/11/2009 às 10:35:02 PM
Prezada Joyce PREVARICAR é o verbo conjugado pelos membros e dirigentes do judiciário brasileiro. Denúncias apresentadas ao atual presidente do TJRJ e ao Corregedor Geral de Justiça não são apuradas e imediatamente arquivadas. Um fato vergonhoso foi publicado no jornal O Globo neste domingo (8 de novembro de 2009) envolvendo o Corregedor de Justiça do RJ, o Desembargador Roberto Wider... Li a matéria e cheguei a conclusão que este deveria renunciar para o bem da Justiça e para a imagem do judiciário,esta que não é nada favorável em relação a população. Vergonhosamente o ministro da justiça transformou a PF em polícia política e repressora,ao invés de investigar e punir os CRIMES de COLARINHO MARROM que assaltam e tomam os cofres e órgão públicos. Conheço os problemas narrados por você,pois tive acesso as provas documentais e criminais envolvendo a Quadrilha que atua no TJRJ. Uma vergonha e covardia sem igual. Êxito para os Idosos ! Herodoto _ Estudante de Jornalismo.
Joyce Torres , Rio de Janeiro-RJ - estudante de filosofia
Enviado em 6/11/2009 às 9:40:34 AM
Um exemplo do CRIME PROBLEMA que ocorre no Rio de Janeiro: QUADRILHA especializada em ROUBO de herança de IDOSOS atua no TJRJ. Vejam na integra os seguinte processo: 1993.001.063217-7(inventário)/2006.001.004373-1(ação cautelar) A juíza titular do cartório,que se declarou suspeita,atua de forma clandestina,para agilizar as ações criminosas dos advogados da empresa de construção civil;estes que utilizaram o nome do idoso(inventariante alijado da cessão de direitos de herança/cláusula primeira) para pedir a avaliação do bem em questão. Há uma dívida pública. A juíza tabelar ignora o art.168 do NOVO CÓDIGO CIVIL,onde o filho do herdeiro alijado na cessão de direitos de herança alerta e denuncia os VÍCIOS jurídicos. Este documento foi produzido sem as autorizações da juíza titular da vara onde tramita o processo, do MPRJ e tão pouco do herdeiro e inventariante legítimo. O outro documento fraudulento é a notificação extrajudicial produzida por um dos advogados da empresa (art.171 do cóg.penal). Vejam também o processo 2007.203.011631-5(reintegração na posse),onde o julgamento antecipado da lide não é atendido e a morosidade para realização da audiência de instrução e julgamento prejudica o autor da ação (idoso). O que dizer do processo 2004.204.009261-0 onde os documentos fradulentos citados acima são ignorados e as mentiras p/ criminalizar?...
Carlos N  Mendes , Santos-SP - industriário
Enviado em 4/11/2009 às 1:23:59 PM
Caro George Felipe, bela abordagem. Passou bem longe da superfície como o problema é tratado. Longe de propor uma solução, pois se solução fácil houvesse, esse problema já estaria resolvido, lembrei de algo que um governo encontrou para perpetrar um crime que, de outra forma, não haveria acontecido. Se funcionou para fazer o mal, pode bem funcionar para o bem. Em 1989, Durante os protestos na praça Tianammen, o governo chinês ordenou que tropas do exército pequinenses avançassem sobre os estudantes. O exército, que já havia se confraternizado com os estudantes, sendo que muitos eram parentes entre si, hesitou em usar a força. A solução do governo foi trazer tropas novas, de regiões distantes, sem identificação com aqueles manifestantes, e então... O número de mortos não se sabe até hoje, mas não se fala em menos de 3.000. O que eu sugiro é desvinculação das autoridades locais na solução do problema, em face de vínculos paralisantes e até mesmo cumplicidade. O oposto pode ser tentado, mas encontra resistência dentro do próprio governo - integração total do governo nas comunidades tomadas das autoridades.
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George Felipe de Lima Dantas

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